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A carta do Repúdio do Povo Munduruku contra PEC-215.

Mundurukania, 30 de outubro de 2015

Nós povo Munduruku,  repudiamos sobre a violência da discriminalidade da PEC 215. viemos a informar e dizer que não  aceitarmos  a modificações da nossa Lei que nos garantem na constituição de 1988,  a preservação e a nossa sobrevivência nativa, não negociamos nosso direito,nossa mãe terra  Ela é pra garantir as futuras gerações do nosso povo. A floresta é de onde a gente sobrevive. Ela cuida, mantém e dá alimento pra nós. Ela sempre dá seu fruto para novos gerações que são nossos pequenos  filhos.

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XI Assembléia do Povo Munduruku do Médio Tapajós

Foto Alessandra Korap

O território Munduruku da árvore mais alta a raiz mais profunda está ameaçada e nós o povo que recebeu do Karosakaybu esta terra, queremos denunciar as ameaças que estamos sofrendo.

Em 2013 várias urnas deixadas por nossos antigos foram roubadas. A cachoeira de Sete Quedas “PARI BIXEXE” (lugar onde os mortos vão depois da morte) local sagrado do nosso povo foi destruído.

Queremos que os pariwat (não indígenas) saibam que nossos locais sagrados são tão importantes quanto suas cidades santas ou seus templos que alcançam os céus.

Nossos locais sagrados não representam o triunfo da riqueza. Nossos lugares sagrados nos apontam o caminho do Bem-Viver.

Por isso, nós exigimos que as urnas roubadas sejam devolvidas e que o governo brasileiro e a empresa que a roubou peçam desculpas à nós, Povo Munduruku, e ao povo brasileiro, da qual fazemos parte.

Esses locais sagrados deixados pelos nossos ancestrais é a verdadeira prova de que existimos, são evidências e vestígios reais de nossa presença. Eles estão espalhados ao longo do leito do rio Tapajós, e cada comunidade Munduruku dessa bacia reconhece pontos sagrados em seus territórios.

Quando falamos ao governo brasileiro da importância do sagrado para nós, de que estes lugares e símbolos não se permite tocar ou remover, as autoridades não entendem e parece que nunca a compreenderão.

Todas as ameaças estão acontecendo para destruir o que nos é sagrado. E todos nós somos sabedores que é a Construção de Usinas Hidrelétricas na bacia do Tapajós é a entrada de vários outros empreendimentos dos setores econômicos do interesse do governo como da Mineração, Hidrovias, construção de portos de navio para transportar grão de soja e construção de Ferrovias no territorio Munduruku.

Para não acontecer o desastre ecológico que não somente causará catástrofe com o povo Munduruku mas também comprometerá a vida dos pariwat que dependem das essências de elementos fundamentais que são indispensáveis para todas as formas de vidas biológicas.

Exigimos ao governo brasileiro que pare com esse projeto de destruição e que os protejam como a Constituição Federal diz. Nós já estamos protegendo desde o princípio, mas da parte do governo brasileiro nós não vemos a proteção.

Pedimos também aos apoiadores que levem a nossa voz para o mundo para pressionar a ONU, OEA e Países de primeiro mundo toda a sociedade organizada do mundo inteiro sobre a destruição do meio ambiente. Porque é justamente a população Indígena, a qual se preocupa em proteger a natureza, que é tão útil para todos no mundo, e por defender o seu territorio, são ameaçados, assassinados, criminalizados. Nós sofremos toda sorte de discriminação por vivermos em harmonia com a natureza.

Estiveram presentes em nossa assembleia os grupos sociais que partilham do nosso modo de vida no Tapajós e em outros rios também ameaçados, os Kaxuyana do rio Trombetas, os ribeirinhos do Arapiúns em Santarém, os beiradeiros de Montanha-Mangabal, os apoiadores do CITA, de Aveiro. Nós estamos juntos na luta pelo futuro de todos.

E para manter essa harmonia com toda classe social é preciso que os nossos territórios sejam demarcados e assim possamos viver da nossa maneira, de acordo com a nossa cultura deixada pelos nossos antepassados. Antes da chegada dos colonizadores o territorio já era nosso. Se esta resistência está acontecendo é por que estamos lutando pelo que é nosso. Não estamos invadindo para depois requerer a terra. Apenas, não queremos perder o que nos resta.

O territorio demarcado é garantir a Educação, Saúde, Segurança nacional, proteção da vida genética, e será orgulho para o mundo por que esta luta tem o verdadeiro sentido em prol da vida humana. Todos querem viver e não perder suas vidas.

Queremos que seja tomado as devidas providencias junto ao Procuradoria da República e outras instancias Federais para agilizar o processo de reconhecimento de nossos direitos constitucionais de acordo com o Art. 231 e 232 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169 da OIT, onde Brasil é consignatário.

Letter from the Munduruku in Support of the Guarani-Kaiowa, Ka’apor, and all the Indigenous Warriors of Brazil.

We, Munduruku of the middle Tapajós River, with four villages in the municipality of Itaituba, Pará, are ourselves in the process of demarcating a territory that, despite being in an area of government initiatives, is land that has belonged to the Munduruku since even before the arrival of the “pariwat” (white) invaders of the fifteenth century, in the colonial era.
The entire indigenous population of Brazil knows that the Brazilian government has never respected our rights, even those that exist in the 1988 Federal Constitution. And no politician in congress defends the rights of indigenous peoples. A good politician would not vote for a law that does away with the rights of our people. She or he would revoke the Proposed Constitutional Amendment (PEC) 215, Ordinance 303 of the Attorney General’s Office, and other proposed laws, like the new mining code.
Moreover, the government’s large projects are trampling the rights of all indigenous peoples of Brazil. One of these initiatives is the construction of hydropower plants in Pará: Belo Monte, São Luiz do Tapajós, and four more along the Tapajós River’s course; one in Jatobá; one in Chacorão; another already in the final phase on the Teles Pires River (continuing onto the São Benedito River), one on the São Manoel River and three more to be built on the Jamanxim River. All of them will produce energy, but none will benefit any nearby cities, let alone the indigenous community.
The electricity will only benefit large companies, such as mining firms and multinationals. A dam will not generate power for small populations that cannot afford to pay for expensive energy. Then, with the dam built, other large projects of destruction will come: railroads and the waterway in the Tapajos River through which soybeans will flow to export abroad. For this waterway they plan to build seven ports along the Tapajós and also pave the BR-163 Highway.
Guarani-Kaiowa and Ka’apor relatives, and all other people who struggle like us: we Munduruku feel a lot of pain for you, for the size of the crime that government officials have committed with our recurring murders. For centuries the pariwat have been taking our lands; they plucked the life from our forest, which gives us food and even medicine for our family. They violate and rape our mother earth and leave her dishonored and disrespected.
With its projects, the government brings neither “progress” nor “development,” but brings only death. And the indigenous population has no right to challenge this type of violation. And when we manifest our outrage (which we are right to have and have rights to express), the government says that we “are obstructing” the process. We, indigenous people, are not obstructing anyone. This is because it is not us who are going to Brasilia to take the pariwat’s land and kill them. Nor have we gone there to disrespect their rights or to invade their territory. How can they accuse us of obstruction when it was they themselves who made the laws to be obeyed and enforced, and now they do not even respect what they themselves wrote? It wasn’t us. We demand that the government guarantee our constitutional rights, rights that flow from the 1988 charter and constituent assembly.
Relatives, let us fight together. All it takes is to observe how nature teaches us. We note that the taoca ants never hunt alone, but in swarms. They enter through the hollows of a trunk and chase away the most fearsome snakes, scorpions, centipedes, spiders, and even the jaguar and the great snake. In the trunks of trees they capture and destroy any species that they confront. These ants are dangerous.

Wasps are the same way. They never attack alone. Also the fierce red ants: first comes only one and close behind comes the pack ready to attack. Wild boars teach us all about the art of fighting or war. Jaguars, during rutting season, come together in groups to mate. Animal species teach us all of this. In every moment of our lives, we indigenous people, we must always pull together.

This is the moment for us to stand and fight together against our greatest enemy, which is the government. Let us form a grand alliance, and here our knowledge teaches us with the wisdom of the tortoise. He is slow, but he’s no fool. He walks little by little, but he’s never behind. He has fortitude and no one can defeat him. The tortoise always wins. He’s very intelligent and wise.

This is the only way: we must join forces. All the indigenous peoples of Brazil and throughout the world, from north to south and east to west. Let’s all let out the cry of “Enough!” Enough with the massacres, enough with the violation of our rights. Enough with the robbing of our lands.

So, if we mobilize our collective forces at the national and international levels, we can yet defeat our greatest enemy. We will not raise our hatchet to shed blood. We want to demonstrate that we are a people who struggle for the lives of all human beings who depend on nature, and not people of war.

All peoples should join this great battle for PEACE, for the love of nature, and for the love of all extant beings, which have different forms of life. Because we depend on all of them.

Sawe!
The Ipereg’ayu Movement and the Pariri Indigenous Association

Aldeia Sawre Muybu, July 15, 2015

tr. Jeremy M. Campbell 7/23/2015

IV Carta de Autodemarcación territorial Munduruku-

Nosotros, los Munduruku del Alto y Medio Tapajós, continuamos con la segunda etapa de la autodemarcación IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAP – DAJE KAPAP EYPI.

Durante cinco días en la selva, hemos determinado seis puntos de la autodemarcación y, a la vez, hemos sido testigos de la destrucción llevada a cabo por los invasores y saqueadores de nuestras tierras: empresas madereras, extractores de palmito y ocupantes ilegales.

El segundo día, mientras seguíamos el rastro de los madereros, tuvimos dificultades para alimentarnos, ya que llevábamos dos días sin encontrar carne de caza. Sabemos que donde hay presencia  de ruido de tractores, de motosierras y movimiento de personas en el ramal, la caza se extingue porque los animales no toleran el olor humano. Mencionamos esto porque que hemos presenciado estos acontecimientos durante la autodemarcación.

Después de recorrer el camino de tierra de los madereros, vimos un sendero y un puente, que ellos utilizan para cargar madera y palmito de açaí. También vimos sus plantíos. Este sendero es una vía para la extracción de madera y troncos de palma. Ahora que estamos en el proceso de autodemarcación, nos hemos percatado de que esta área afectada se encuentra dentro de nuestro territorio.

Hemos observado la destrucción que esta gente está haciendo en los campos de açaí. Hemos observado la destrucción que esta gente está haciendo en los campos de açaí: comienzan los madereros creando el ramal y luego vienen los extractores de palmito para destruir los acaiçales. Hemos tratado de preservar el açaí para poder dárselo a nuestros nietos, pero ahora nos damos cuenta de que no queda casi nada en nuestra tierra. De esta tierra es de donde extraemos la fruta para dar su jugo a nuestros hijos, y ahora estamos presenciando su destrucción. Siempre decimos que el PARIWAT (hombre no indígena) no tiene ningún tipo de conciencia sobre esto.

La razón por la que estamos demarcando nuestra tierra es porque el PARIWAT está destruyendo los árboles y nosotros no lo hacemos. La intención del PARIWAT y del Gobierno Federal es destruir y la intención del indígena es preservar. ¿Por qué preservamos? Porque este patrimonio nos lo ha otorgado nuestro guerrero Karosakaybu. La tierra es nuestra madre, la que nos proporciona el sustento y supervivencia, y donde podemos vivir de acuerdo a nuestra propia cultura.

DAJE KAPAP EYPI es un lugar sagrado para todo el pueblo Munduruku, ya sea del Alto o Medio Tapajós. Tenemos que preservar nuestra naturaleza, nuestro río, nuestros animales y nuestros frutos, otorgados por Karosakaybu.

Estamos llevando a cabo la autodemarcación con el fin de demostrar que esta es nuestra tierra y para que los hombres blancos la respeten. Queremos tener autonomía sobre nuestra tierra, queremos que nosotros, los indígenas, seamos los fiscales y protectores de esta tierra, como siempre lo hemos sido.

Seguimos aquí en la autodemarcación y no sabemos con qué nos encontraremos más adelante…

Sawe!

11 de julio de 2015, aldea Munduruku Sawre Muybu, Medio Río Tapajós. Estado del Pará, Brasil.

Traducción por Anai Vera e Guillermo Justel, revisado por Emilia Villagra e Inés Jimenes

Coordinado por el “Comité Paulista de Solidaridad a Lucha Por el Tapajós”

Carta dos Munduruku em apoio aos Guerreiros Guarani Kaiowa, Guerreiros Ka’apor e a todos os guerreiros indígenas do país.

A carta do povo Ka’apor, povo do Maranhão, divulgada no começo do mês que além de solidarizar com a luta dos povos Guarani Kaiowa e Munduruku, convoca todos  a uma contínua união  em torno da luta contra os saqueadores de direitos de comunidades tradicionais, donos de terras e governantes deste País. Esta carta, foi respondida pelo Movimento Munduruku Ipereg’ayu, leia  a carta na íntegra:

(Carta do Ka’apor aos Guerreiros Guarani Kaiowá e Guerreiros Munduruku aqui.)

01

Carta dos Munduruku em apoio aos Guerreiros Guarani Kaiowa, Guerreiros Ka’apor e a todos os guerreiros indígenas do país.

Nós, Munduruku do médio tapajós, com quatro aldeias localizadas no município de Itaituba-PA e um novo território em processo de autodemarcação dentro da área de empreendimento do governo, onde o território é dos munduruku antes mesmo da chegada dos pariwat invasores do século XV, no tempo dos colonizadores.

Toda a população indígena do Brasil sabe que o governo brasileiro nunca respeitou o nosso direito, mesmo ele existindo na Constituição Federal de 1988. E nenhum político que ocupa o cargo no congresso defende o direito dos povos indígenas. Se fosse um bom politico, não votaria em aprovar a Lei que acaba com os direitos dos povos. Revogaria a PEC 215, a Portaria 303 da AGU e outros projetos de lei, como o novo código da mineração.

Além do mais, os grandes projetos do governo estão atropelando os direitos de todos os povos indígenas do Brasil. Um deles é a construção de Usinas Hidrelétricas no Pará: Belo Monte, São Luiz do Tapajós e mais 4 ao longo do leito do tapajós; uma no Jatobá; uma no Chacorão; outra já em fase final no rio Teles Pires e com continuidade em São Benedito, no rio São Manoel e mais três a serem construídas no rio Jamanxim. E todas elas produzirão energia, mas não beneficiarão nenhuma cidade mais próxima e muito menos a comunidade indígena.

A Energia virá apenas para favorecer as grandes empresas, como as mineradoras e as multinacionais. A hidrelétrica não gerará energia para as pequenas populações que não tem condição de pagar energia cara. Então, com a barragem construída virão mais outros grandes projetos de destruição: a ferrovia; a hidrovia no rio tapajós para escoar os grãos de soja, para exportar ao exterior. E com isso pretendem construir 7 portos no leito do tapajós e asfaltar a BR- 163.

Parentes Guarani Kaiowa, Ka’apor e todos os outros povos que lutam como nós: nós, munduruku, sentimos muitas dores por vocês, pelo tamanho crime que os governantes vêm cometendo, com nossos assassinatos recorrentes. Há séculos os pariwat vêm tomando as nossas terras, vem tirando a vida de nossa floresta que nos dá alimentos para nossa família e que nos dá até medicação. Violentam e estupram a nossa mãe Terra e a deixa desonrada, não a respeita.

O governo, com o seu projeto, não traz “progresso e nem desenvolvimento”, só traz morte. E a população indígena não tem direito de contestar esse tipo de violação. E quando nos manifestamos indignados, com toda razão e com direitos, o governo diz: “estão atrapalhando”. Nós, indígenas, não estamos atrapalhando ninguém. Porque não somos nós que estamos indo a Brasília para tomar as terras dos pariwat e matar. Nem vamos lá para desrespeitar os seus direitos e não invadimos os seus territórios. Como dizem que estamos atrapalhando se foram eles mesmos que fizeram essa tal de Lei para ser obedecida e cumprida e não estão nem respeitando o que eles mesmos escreveram? E não fomos nós. Nós exigimos que o governo garantisse o nosso direito constitucionalmente, na carta magna, na Assembleia constituinte.

Parentes, vamos lutar juntos. É só observar como a natureza nos ensina. Observamos que as formigas taoca nunca caçam sozinhas, mas em bando. Elas entram nas ocas e fazem fugir as mais temíveis cobras, escorpião, centopeia, aranhas, a onça, a grande cobra. Entram em oco de paus e capturam e destroem qualquer espécie que encontram pela frente. Essas formigas são perigosas.

Da mesma forma agem os maribondos. Eles nunca atacam sozinhos. E também as formigas vermelhas ferozes: primeiramente ela vem sozinha e logo em seguida vem o bando para atacar. Os porcos do mato nos ensinam tudo sobre a arte de lutar ou da guerra. As onças, no período do cio, juntam-se em bando para acasalar. As espécies animais nos ensinam tudo isso. Em todos os momentos de nossa vida, nós indígenas, devemos sempre estar juntos.

O momento é esse para lutarmos juntos, contra o nosso maior inimigo, que é o governo. Vamos formar uma grande aliança como o nosso saber nos ensina: a sabedoria do jabuti. Ele é lento, mas não é lerdo. Ele anda devagar, mas não fica para trás. Tem uma resistência e ninguém o derrota. Ele sempre vence. É muito inteligente e sábio.

A única forma é essa: Nós temos que unir nossas forças. Todos os povos indígenas do Brasil e do mundo, desde o norte até o sul, do o oriente ao ocidente. Vamos dar o grito de “basta”! Chega de nos massacrarem, de violarem nossos direitos. Chega de tomarem as nossas terras.

Então, se fizermos uma grande mobilização de nível nacional e internacional poderemos vencer o nosso maior inimigo. Nós não vamos levantar a nossa machadinha para derramar sangue. Queremos mostrar que somos um povo que luta pela vida de todos os seres humanos que dependem da natureza, e não da guerra.

Todos os povos devem se juntar para essa grande batalha pela PAZ, o amor pela natureza, o amor a vida. De todos os seres existentes, que possuem formas de vidas diferentes. Por que nós dependemos de todos eles.

Sawe!

Movimento Ipereg’ayu e Associação Indígena Pariri

Aldeia Sawre Muybu, 15 de julho de 2015

Carta dos Munduruku apoio kaapor e guarani kaiowa

IV CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO

IV CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO

Nós Munduruku, do alto e médio Tapajós, estamos dando continuidade com a segunda etapa da autodemarcação IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAP- DAJE KAPAP EYPI.

Em cinco dias na floresta, concluímos seis pontos da autodemarcação e presenciamos rastros de destruição, feitos pelos ladrões invasores de nossas terras: madeireiros, palmiteiros e grileiros.

No segundo dia, acompanhando o rastro dos madeireiros, encontramos dificuldades para a alimentação, estávamos há dois dias sem encontrar caça. A gente sabe que onde há presença de zoada de trator, de motosserra, e com a circulação de pessoas no ramal a caça fica extinta, esses animais não suportam sentir esse cheiro humano. Estamos falando a respeito disso em razão de presenciar essa cena durante a autodemarcação.

Depois que a gente varou no ramal dos madeireiros, vimos uma trilha, uma ponte, que eles fazem para carregar madeira e palmito de açaí. Vimos também a roça deles. Isso aqui é uma estrada para puxar madeira e palmito. Como a gente está autodemarcando agora, percebemos que está dentro da nossa área.

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Estamos vendo aqui a destruição que o pessoal está fazendo no açaizal. Quem começa tudo isso são os madeireiros. Eles fazem o ramal e os palmiteiros vem atrás destruindo o açaizal. A gente estava preservando para tirar o açaí para os nossos netos, estamos vendo que não temos mais quase nada na nossa terra. Daqui que a gente tira a fruta para dar o suco aos nossos filhos e agora estamos vendo a destruição. Sempre dizemos que o pariwat (branco) não tem consciência disso.

Por isso que estamos fazendo a autodemarcação, porque os pariwat estão destruindo as árvores, nós não fazemos ao modo deles. A intenção do pariwat e do governo federal é só destruir mesmo, e a intenção do indígena é preservar. Por que a gente preserva? Porque esse patrimônio foi dado a nós por nosso guerreiro Karosakaybu, a terra é a nossa mãe de onde tiramos nossa sobrevivência e onde podemos viver de acordo com a nossa cultura.

Daje Kapap Eypi é um lugar sagrado para todo o povo Munduruku, seja do alto ou médio Tapajós. Temos que preservar a nossa natureza, o nosso rio, os nossos animais e as nossas frutas, deixadas por Karosakaybu.

Estamos realizando a autodemarcação para mostrar que essa terra é nossa, para que os brancos respeitem a nossa terra. Queremos ter autonomia em nossa terra, queremos que nós, indígenas, possamos ser os fiscais e protetores dessa terra como sempre fomos.

Continuamos aqui na autodemarcação e não sabemos o que vamos encontrar pela frente…

Sawe!

11 de julho de 2015, aldeia Sawre Muybu, médio Rio Tapajós.

Essa é a razão da nossa luta por território

Foto: Márcio Isensee

Carta de Jairo Saw Munduruku comentando a decisão da justiça Federal em obrigar a FUNAI a dar prosseguimento ao reconhecimento da Terra Indígena Sawre Muybu e sobre a importância do território para os Munduruku. Avance, lute e não desista!!!

Essa é a razão da nossa luta por território

Por Jairo Saw Munduruku

É dever de o governo proteger os povos indígenas em todos os aspectos culturais circunstanciais. Garantida o direito à terra tradicionalmente ocupada, com usufruto exclusivamente do povo para a sobrevivência da sua espécie. O governo não deve nos proteger usando a força de opressão, intimidando-nos com uso da violência, sem ambição e sem interesse econômico da nossa terra. Nós não negociamos a terra, trata-se de preservar o que ela nos oferece. Sendo ela bem cuidada ela também nos cuidará.

Todos os seres humanos não somente os indígenas precisam da terra como principal fonte da sobrevivência. Os animais, insetos, árvores, águas e todas as formas existente de vida biológica que nela há, são importante para os indígenas. As árvores precisam de aves, animais e de indigenas para equilibrar a evolução da cadeia alimentar.

      Todos os bens comuns que há na terra nós não enxergamos como riqueza. Para possuirmos grandes riquezas não precisamos destruir o patrimônio que nossos antepassados nos deram. Ninguém pode destruir os seus próprios bens patrimoniais e muito menos há dos outros. Nós apenas mantemos como ela sempre deve ficar. Nós a protegemos por que ela é parte de nós. Ela é vida. É delas que comemos frutos tão nutritivos. Quaisquer plantas que, seja ela grandes ou pequenas elas tem as essências naturais para uso medicinais. Por essa razão nunca pensamos em destruir a propriedade que temos. Por que é útil pra nós, para animais, pássaros, insetos, pra peixes e também para os seres humanos que dependem dela. Por que dependemos uns dos outros. É assim que funciona o ecossistema.

Da mesma forma a utilidade da água. E ninguém no mundo em que vivemos sobrevive sem a água, nem as pessoas, nem as plantas e nem mesmo os pequenos insetos. As plantas e insetos se alimentam dos orvalhos que caem a noite.  Nós indígenas utilizamos para tratamentos medicinais. Tudo isso é de suma importância pra nós.  O que não queremos é que haja mudança da vida do rio. Fazendo a mudança vai comprometer a vida de outros pequenos igarapés que são partes desse afluente. Os animais que frequentam os leitos dos igarapés e que comem dos frutos que se encontram ao longo do curso desse igarapé vão sentir falta. Vão perceber a mudança e sofrerão impactos do modo de seu viver. Os animais que são irracionais sentem os impactos e nós que somos animais racionais, pensamos mais do que eles.

O direito que temos garantido na constituição não é respeitado. O cumprimento não existe pelos próprios que constituíram a Lei na Constituição de 1988. Os países do primeiro mundo, do outro lado do mar não sabem da nossa situação que estamos passando aqui nesse país que se chama Brasil. As informações ao nosso respeito não é levado aos países estrangeiros eles acham que o Brasil está cuidando muito bem a população indígena. Há um silencio nesse meio de comunicação.  E ninguém nos conhece por causa da mídia que não comunica através desse meio. O importante pra eles é que as noticias desse genocídio não cheguem ao conhecimento deles.

Se estivermos dizendo “não” aos projetos do governo que pra nós não é viável. Dizem que estamos atrapalhando o desenvolvimento do progresso. Destruir patrimônio de um povo, e todo o seu conhecimento, seu modo de viver, destruindo suas terras e matando a todos isso não é desenvolvimento e nem progresso. É interesse dos grandes latifundiários (agronegócio) que não gostam dos povos indígenas. Só para desenvolver suas experiências de agrotóxicos nas plantas e depois o povo que são pariwat (não-indígenas) consomem e eles nem sabem que estão se alimentando com produtos que contém venenos.

Essa é a razão da nossa luta por território. Todas coisas que existem no meio ambiente ele é considerado sagrado. Não podemos desrespeitar devemos deixar como ela sempre ficou. Por que serve pra nós como para os não índios mas, eles não levam em consideração o que alertamos e o que estamos dizendo. Isso não é fábula, nem lenda isso é pura realidade. 

Estamos pedindo a solidariedade da sociedade que despertem da real situação que está acontecendo com o governo que não está dando atenção à população indígena. O direito de todos os brasileiros estão sendo violados. Não é só dos Munduruku. Veja a violação de vários outros direitos: a dos professores, dos pequenos produtores rurais, da saúde, dos consumidores, direito da criança e do adolescente, e etc…!

Avance, lute e não desista!!!

O nosso Direito está em jogo!

Vamos fazer valer o reconhecimento de nossos Direitos!