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Um pequeno relato “na beira da história”.

Mundurukânia, Na Beira da História from Familia Bastos Produções on Vimeo.

Era meados de outubro de 2014. Eu voltava depois de duras duas semanas de Daje Kapap Eypi (conhecida pelos não indígenas como Sawré Muybu). Levava comigo uma lista de demandas e uma carta feita pelos Munduruku pedindo a demarcação da Terra Indígena e a incumbência de publicá-la “para que o Brasil e o mundo veja”, palavras do cacique Juarez Saw um pouco antes que eu pegasse a voadeira.

Estava hospedada em um pequeno hotel em Itaituba, um pouco agoniada, quando bate à porta um cara com a voz estridente. O Miguel me falou da sua proposta de gravar um documentário sobre arqueologia. Expliquei a tensão que tomava conta do cenário, do encontro com madeireiros e dos perrengues para seguir com a ação. Depois de nada mais de 10 minutos de conversa pontuei que talvez não fosse o melhor momento para ele ir a Daje Kapap Eypi.

Pensei: “Quê que esse maluco quer falar sobre arqueologia.  A autodemarção pegando fogo e vem esse justo agora?! Era só o que faltava”.

Insistente, o Miguel não ligou para o que eu disse e seguiu sua empreitada de ir a Daje Kapap. Ainda bem. Nos encontramos algumas horas depois e ao largo dos dias ele foi falando sobre seus antigos trabalhos e mostrando no cotidiano cada vez mais comprometimento com os movimentos sociais. Não só gravou, como ajudou a criar este blog, editou vídeos que não eram parte do seu documentário e colaborou com gps, corte de aŕvores, transporte e tudo que era necessário para seguir com a autodemarcação.

A presença do Miguel foi importante em vários momentos e isso foi percebido por todas nós que tivemos contato com ele, principalmente pelos Munduruku, que viram nele não somente um cara que estava gravando um vídeo.

Um dia, a motoserra utilizada para abrir os caminhos se quebou. Por sua experiência na colônia na Catalunha onde vive, Calafou, ele a ajeitou e ganhou a confiança do seu Juarez que dizia “esse daí não vai mais não. Ele não é só jornalista, mas é lenhador também. Pode mandar a câmera embora e ele fica para ajeitar a motosserra!”.

Pouco a pouco fui percebendo a importância redobrada de falar sobre arqueologia em Sawré Muybu. Por aquelas terras ameaçadas com a construção de hidrelétricas do Tapajós, terras que  o governo brasileiro não demarca, que grileiros dizem ter posses… Por essas terras tão disputadas, os Munduruku já pisavam há milhares de anos e a arqueologia pode ajudar a provar isso.

Trabalhamos juntos no documentário, o ajudei com entrevistas, gravações e a amizade que construimos foi um marco na minha vida.

Não costumo e nunca assinei os textos que escrevi neste blog, mas achei necessário e fundamental dar este relato pessoal. Um, pelo comprometimento do Miguel com os Munduruku e com esse blog. Dois, pelo lindo trabalho que fizemos juntos.

Compartilho com vocês, leitores, com muito orgulho, o documentário “Mundurukania, na beira da história”. Compartilhem e façam visível a luta dos munduruku pela demarcação da terra indígena Daje Kapap Eypi.

Larissa Saud

 

 

 

PEC 215 NÃO! O GOVERNO NÃO VAI ROUBAR NOSSA TERRA, AUTODEMARCAÇÃO CONTINUA!

Nós povo Munduruku, reunimos dias 09 a 11 de novembro na aldeia Muiuçuzao, em Jacareacanga. Estiveram presentes caciques, lideranças, guerreiros, guerreiras, pajés e sábios para discutir a PEC 215. Essa lei que vai matar nós em nossa casa onde vivemos e educamos nossos filhos. Discutimos também o plano de resistência dos Munduruku para garantir a nossa luta e as futuras gerações.

Estamos fazendo a autodemarcação para garantir a nossa mãe terra preservada e protegida. Nosso território sagrado Daje Kapap Eipi aprendemos com nossos sábios e nosso Deus Karosakaybu a cuidar e a manter vivo coletivamente.

Alertamos todos os caciques e as lideranças a se manifestarem contra os inimigos anti indígenas que estão a nossa volta como sucuri apertando, nos mantando, nos enforcando, ao redor da nossa casa onde nós vivemos com nossas tradições.

Não aceitamos a emenda constitucional PEC 215 que vai matar os povos indígenas. Queremos garantir nossos direitos e nosso território. Não negociamos a nossa mãe terra!

Contamos com todos os povos indígenas e aliados nessa luta contra PEC 215 e outros projetos do governo que viola nossos direitos e quer matar nós.

Somos os povos originários desse país, o Brasil não existe sem os povos indígenas. Somos tesouro desse país e vamos enfrentar essa ameaça com nossa voz e autonomia.

Bora pra luta!!!

Bora compartilhar!!!

Sawe!!!

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A carta do Repúdio do Povo Munduruku contra PEC-215.

Mundurukania, 30 de outubro de 2015

Nós povo Munduruku,  repudiamos sobre a violência da discriminalidade da PEC 215. viemos a informar e dizer que não  aceitarmos  a modificações da nossa Lei que nos garantem na constituição de 1988,  a preservação e a nossa sobrevivência nativa, não negociamos nosso direito,nossa mãe terra  Ela é pra garantir as futuras gerações do nosso povo. A floresta é de onde a gente sobrevive. Ela cuida, mantém e dá alimento pra nós. Ela sempre dá seu fruto para novos gerações que são nossos pequenos  filhos.

Continuar lendo A carta do Repúdio do Povo Munduruku contra PEC-215.

ICMBio mente ao negar nossa existência no nosso território sagrado e ao mesmo tempo lança edital de concessão florestal

Foto Alessandra Korap

Na assembleia que teve no médio Tapajós, a gente falou frente a frente para o ICMBio que nós é que somo os protetor da nossa terra. A gente sabe o que é o trabalho do ICMBio nessa área. A área que eles chamam de Flona I e II. Ela não é Flona, é nossa terra, nossa mãe!

Somos daqui, somos filho dessa terra, que o nosso deus Karosakaybu deixou pra nós. O trabalho do ICMBio era pra manter a floresta viva e na verdade não está fazendo esse trabalho. A gente viu tanta destruição nessa volta toda da autodemarcação. A garimpagem tá lá, os palmiteiros estão no Jamanxim. O ICMBio não está fazendo o trabalho dele. Está deixando destruir nossa terra. Então queremos que vocês retirem essas placas.

Essa terra é Daje Kapap não é Flona. A gente não considera isso Flona. Tem que tirar essas placas. Nós vamos botar as placas do Daje Kapap que é nossa terra, nossa mãe. A gente está aqui, a gente está mantendo a proteção.

Vocês estão colocando as placas de vocês para dar o sinal onde vai ser a destruição na floresta. Nós temos autonomia e o direito de defender nosso território. Nós queremos que vocês retirem essas placas. A gente vai continuar defendendo esse território enquanto a gente estiver vivo e firme.

Saiba mais MPF pede suspensão da concessão das florestas nacionais Itaituba I e II

Reunidos em Assembleia, Munduruku enviam carta de apoio aos Guarani Kaiowá!

Aldeia Munduruku Dace Watpu, Município de Itaituba, Pará

25 de setembro de 2015

Quando uma comunidade é atacada, todos nós sentimos a violência:
a luta por vida, terra e demarcação é de todos nós.

Nós, povos Munduruku, Munduruku Cara Preta, Arapium, Borari, Kaxuyana, e lideranças das comunidades Pimental, Montanha e Mangabal e membros da sociedade civil, reunidos na XI Assembleia do Médio Tapajós desde 22 de setembro, expressamos o nosso repúdio aos ataques sofridos pelos parentes Kaiowá e Guarani, em Mato Grosso do Sul. No último mês, a cada três dias uma comunidade sofreu um ataque armado. Em um desses ataques o parente Semião Vilhalva foi assassinado – com um tiro na cabeça enquanto bebia água em um rio.

Consideramos inaceitável a violência sistemática à qual os parentes de Mato Grosso do Sul estão submetidos: perseguição, criminalização e assassinato de lideranças, esbulho de terras tradicionais, envenenamento de terras e rios e outros tantos crimes. Com isso é gerada uma situação de insegurança e vulnerabilidade tão grandes, que a população Kaiowá registrou os maiores níveis de suicídio do Brasil nos últimos anos.

A luta dos Kaiowá e Guarani e a dos povos da Amazônia são a mesma. Povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas defendem o direito a vida, à autodeterminação e o reconhecimento de seu território. Hoje e sempre, exigimos respeito aos direitos. E não aceitamos mais nenhuma morte.

Terminamos aqui a nossa assembleia com dor ao pensar nos parentes Guarani Kaiowá que sofreram e ainda sofrem com os últimos ataques paramilitares (como continuamos sofrendo com a morte do jovem guerreiro Munduruku Adenilson Kirixi) e exigimos justiça:

CHEGA DE MILÍCIAS ARMADAS!
CHEGA DE ÓDIO CONTRA AS POPULAÇÕES INDÍGENAS!

VIVA ADENILSON KIRIXI! VIVA SEMIÃO VILHALVA!

VIVA OS TERRITÓRIOS SAGRADOS E OS RIOS LIVRES DE BARRAGENS!

SAWEEE!!!documento-pag1

DA AMAZÔNIA DOS ÚLTIMOS 13 MIL ANOS AOS MUNDURUKU

Todo mundo quer saber de Amazônia. Há dados imensos para todas as pautas e áreas de pesquisa, tanta informação e tanto desconhecimento. Nossa floresta nacional, brasileira como nós, com brasileiros como nós dentro dela, há séculos não é uma mata intocada, nem mesmo (ou “muito menos”) nos seus primórdios. Os dados de pesquisas arqueológicas dos últimos cinquenta anos compilam denso passado ainda vivo, desde a mínima constatação de como viviam nossos ancestrais aos costumes, ainda hoje como lá atrás, presentes no cotidiano das populações ribeirinhas e dos povos indígenas, os mesmos que travam resistência contra a política energética extrativista do governo federal. Assustador pensar que possamos estar testemunhando os sítios arqueológicos de amanhã.

A pergunta que nos vem à mente, quando confrontamos passado e presente numa mesma fração de segundo: o que os arqueólogos, desbravadores do século XXI, encontrarão num futuro próximo entre os escombros? São muitos os sítios, assim como os fenomenais geoglifos no Acre, descoberta feita por arqueólogos brasileiros, cortados por rodovias; cavernas com pinturas rupestres implodidas à dinamite de mineradora; desenhos em pedra naufragados por usinas hidrelétricas. Paradoxalmente são muitas as pesquisas que vêm acontecendo a reboque dessa mesma economia que, por força de lei e não por gosto, acaba mantendo levas de pesquisadores em plena floresta. A mesma economia e seu modelo de “desenvolvimento” que nos entrega o colapso de Altamira (PA) e ameaça os Munduruku e suas terras, no Tapajós.

O Xingu está morrendo, a Amazônia vive uma espécie de morte, e um tanto desse documento, do que resiste e está vivo, não só na luta que se trava na região, “arco e flecha” contra “Força Nacional”, está em “Na Rota dos Arqueólogos da Amazônia – 13 mil anos de selva habitada”, livro-reportagem da jornalista Solange Bastos, que vem com o documentário “Mundurukânia, na beira da história”, do diretor Miguel Viveiros de Castro.  A pesquisa é primorosa, os dados são impressionantes e o conceito é inédito: em um único projeto, os arqueólogos e suas pesquisas com suposições e respostas sobre nossos antepassados e sobre a maior floresta do mundo. No documentário, os sítios sendo escavados e o acompanhamento inédito da autodemarcação das terras pelos Munduruku.

Orgulhosamente, o Coletivo Carranca é citado no livro, mais de uma vez, como referência de conteúdo. As matérias citadas em Box e notas de rodapé denunciam o retrocesso na política ambiental e cultural impetrado pelo governo brasileiro, as ameaças sobre nosso patrimônio material e imaterial, a tragédia de Belo Monte e no Tapajós e a luta de ribeirinhos e dos Munduruku. A série foi produzida pelos Carrancas Rachel Gepp, Rui Massato Harayama e Raquel Boechat — que também assina um dos capítulos anexos sobre a Política, a Arqueologia e o Direito.

Hoje, 30/09, dia em que nosso Coletivo comemora dois anos de sua primeira transmissão ao vivo (de uma das mais violentas manifestações dos professores do Rio de Janeiro), estar no primeiro dia de lançamento desse projeto, produzido por ativistas em essência, além de uma honra é uma bela maneira de comemorarmos a materialização de nosso “midiativismo” nas entranhas da academia e da micropolítica nacional.

Em próxima edição especial, entrevista exclusiva com Miguel Viveiros de Castro e Solange Bastos.

A caravana de lançamento que começa hoje!

– 30/09: Goiânia, às 16h – Auditório do Museu Antropológico da UFG – Praça Universitária no. 1166 ao lado da Área II da PUC-Goiás.

– 03/10: Brasília, às 19 h – Balaio Café – CLN 201, bloco B, loja 19/31, Asa Norte.

– 13/10: Rio de Janeiro, às 18 h – Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Av. Marechal Câmara, 150, Centro, com a presença do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

– 15/10: São Paulo, às 19h – na Sala Petrobras da Cinemateca Brasileira – Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino.

– 04/11: Belém, às 18h – Espaço Casulo Cultural – Travessa Frutuoso Guimarães, 562 – Campina.

Haverá lançamentos também em Teresópolis, Santarém, Alter do Chão, Itaituba e na aldeia Munduruku Sawré Muybu, entre 22 3 31/10.

Fonte: Coletivo Carranca