Carta das mulheres Munduruku em resposta à Funai e às empresas hidrelétricas do Teles Pires

 

Nós, mulheres, pajés, caciques, cacicas, guerreiros, guerreiras, cantores, cantoras, professores, lideranças Munduruku reunidos na aldeia Missão Cururu de 28 a 30 de setembro, estamos aqui para denunciar que mais uma vez as empresas e a FUNAI mentiram e não cumpriram o acordo que fizeram com o povo Munduruku na ocupação da UHE São Manoel.

Muitas mulheres e muitos antigos da luta, mesmo com muita dificuldade, vieram de suas aldeias para dialogar com as empresas e com a FUNAI e mostrar o sofrimento causado pelas barragens, que estão destruindo e deixando a gente com o rio sujo,matando os peixes .

Antes de construir essas hidrelétricas, eles nunca consultaram a gente. Nós fizemos o Protocolo de Consulta, mas o governo nunca cumpriu. Nem a FUNAI, que fala q é defensora dos direitos indígenas que vai cumprir o que está no Protocolo, mas nunca cumpriu. Eles não reconhecem o povo. Não só os indígenas, mas também os ribeirinhos. No mês de setembro, o Presidente Franklinberg Freitas descumpriu o Protocolo munduruku e indicou Olinaldo de Oliveira, conhecido como Fuzica, para assumir um cargo importante na Coordenação Regional do Tapajós. Nós não aceitamos essas indicações políticas e nem que ele passe por cima da nossa decisão, que era a readmissão do Ivanildo Saw Munduruku. Por isso ocupamos a FUNAI e Olinaldo pediu para ser exonerado.

Para ter diálogo com o povo Munduruku, eles têm que vir aqui nas nossas aldeias, comer com a gente, beber água do rio, ver de onde a gente tira nosso alimento. Se eles fizeram a barragem, eles também vão ter que beber da água do rio, com vazamento de óleo, peixe contaminado, animais morrendo. Vão ter que comer com a gente e sofrer o que a gente tá sofrendo.

Assinaram nossas reivindicações e prometeram que viriam na aldeia pedir desculpas pelas destruições dos lugares sagrados, mas não vieram e só enviaram suas palavras cheias de jurupari (espíritos do mal). Disseram que invadimos a UHE São Manoel com armas, mas não estamos pedindo o que é deles, estamos falando do que é nosso.  Quando ocupamos o canteiro não demorou um dia para eles aparecerem lá. Eles falam que aquilo é deles, mas aqui eles não vieram.

Eles não tiveram coragem de vir olhar na nossa cara dentro da nossa casa. Quando fazemos ocupação eles têm coragem de olhar pra cara da gente, porque estão armados. Nós nunca usamos arma para lutar contra eles, nós usamos nossa cultura, nossa fala. Os pariwat que usam armas para intimidar. Com suas armas assassinaram Adenilson Kirixi. Nós sempre usamos arco e flecha que é da nossa cultura e vamos continuar a usar.

Se a gente não falar nada, vão continuar igual aos cachorros. A gente fala, fala e eles nunca ouvem.

Mesmo sem as empresas, sem apoio de combustível e alimentação, nós fizemos a audiência e mostramos que não dependemos dos pariwat. Temos território, temos nosso peixe e mostramos que a gente está aqui, trabalhando e construindo nosso plano de vida. Mas o governo e as empresas só estão atrapalhando. Essa época é o momento de plantação das nossas roças, em que estamos conversando com as plantas para elas crescerem e o Governo está interferindo nisso tudo. Hoje é dificil as mulheres que estão no movimento ficar nas suas casas, cuidar dos filhos, das roças.

Foi o choro das nossas crianças que fez as mulheres chegarem até o canteiro de São Manoel junto com os homens. Somos mãe, a mãe da nossa terra, nós cuidamos dela. Somos a mãe peixe. Antigamente todas viramos peixe, todas as mulheres foram embora para o rio, por isso sabemos o que está acontecendo com nosso Idixidi sagrado.

Eles não cumpriram o acordo, mas isso não quer dizer que nós fomos derrotados.  Quanto mais o governo e as empresas negam nossos direitos, mais a gente vai reagir. O Governo e as empresas estão se declarando e nós vamos reagir.

Nas palavras de morte das empresas, eles não falam da destruição dos nossos locais sagrados. Dizem que não têm que pedir desculpas. Escondem que acabaram com Karobixexe e Dekuka’a. Os espiritos nao têm onde ficar, estão rodando, procurando seu lugar. Agora estamos sentindo  a cobrança dos espíritos. Tem gente adoecendo. Está tendo muito acidente, crianças afogadas, picada de cobra. Por isso que a gente foi pra ocupação.  Decidimos que temos que fazer a segunda visita às urnas no dia 7 de outubro 2017, isso foi o compromisso que fizemos durante a primeira visita (cf. pauta anexa). A empresa vai ter que pagar todos as despesas da viagem. Precisamos fazer esses rituais lá. Até as empresas virem até nós e pedirem desculpa, os espíritos não vao sossegar. Também continuamos exigindo que as empresas venham até o território Munduruku e façam audiência para pedir desculpas por terem destruído nossos locais sagrados e parem de negar essa violência que fizeram com a gente.

Esperamos uma resposta urgente da empresa e da FUNAI. E nós mulheres junto com os pajés, caciques, cantores, lideranças estamos prontos para voltar para a ocupação.

 

Sawé!

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