III Carta da autodemarcação do Território DAJE KAPAP EYPI

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Aldeia Sawré Muybu, 28 de novembro de 2014

“Quando nós passamos onde porcos passaram, eu vi, eu tive uma visão deles passando. Eu tenho 30 anos. Quando eu era criança minha mãe me contou a história dos porcos. É por isso que devemos defender  nossa mãe terra.  As pessoas devem respeitar também. Todas as pessoas devem respeitar porque a história está viva ainda, estamos aqui, somos nós”, Orlando BorÔ Munduruku, aldeia Waro Apompu do Alto Tapajós.

Hoje, pela primeira vez durante a autodemarcação, chegamos ao local sagrado Daje Kapap Eypi, onde os porcos atravessaram levando o filho do Guerreiro Karasakaybu. Sentimos algo muito poderoso que envolveu todo nosso corpo.

Outra emoção forte que sentimos hoje foi ver nossa terra toda devastada pelo garimpo bem perto de onde os porcos passaram. Nosso santuário sagrado está sendo violado, destruído 50 pc’s (retroescavadeiras) em terra e 5 dragas no rio. Para cada escavadeira, 5 pobres homens, em um trabalho de semiescravidão, explorados de manhã até a noite por 4 donos estrangeiros.

Pirmeiro o governo federal acabou Sete Quedas, no Teles Pires, que foi destruído pela hidrelétrica, matando o espírito da cachoeira. E agora, com seu desrespeito em não publicar o nosso relatório, acaba também com Daje Kapap Eypi.

Sentimos o chamado. Nosso guerreiro, nosso Deus, nos chamou. Karosakaybu diz que devemos defender nosso território e nossa vida  do grande Daydo, o traidor, que tem nome: O governo Brasileiro e seus aliados que tentam de todas as formas nos acabar.

Nós estamos lutando pela nossa demarcação há muitos anos, sempre que a gente vai pra Brasília a FUNAI inventa mentiras e promessas pra nos acalmar. Sabemos que a Funai faz isso para  ganhar o tempo para construção da hidrelétrica do Tapajós, agora nós cansamos de esperar.

Sem chorar ou transformando as lágrimas em coragem, em Assembléia tomamos a seguinte decisão: A FUNAI tem três dias para publicar o nosso relatório e dar continuidade à demarcação, homologação e desintrusão da nossa terra.

Caso não sejamos atendidos, vamos dar continuidade ao trabalho da autodemarcação até o final. Por enquanto só estamos avisando os invasores que eles devem sair do nosso território, mas, se a Funai não fizer o que tem que ser feito, ou seja, publicar o nosso relatório e demarcar nossa terra, a mesma, com sua omissão, estará provocando um conflito com proporções inimagináveis entre Munduruku e invasores, que já é anunciado há muito tempo, com todas as denúncias de ameaças que estamos sofrendo.

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Munduruku ocupam Funai para pressionar demarcação

DSC_0430modGuerreiros, guerreiras e crianças Munduruku ocuparam na manhã de hoje (28) a sede da Funai de Itaituba. Os indígenas queriam pressionar a Funai a publicar o relatório e o mapa com as delimitações da terra indígena Sawré Muybu. Ao perceber que não haveria acordo, no final da tarde, eles resolveram seguir com a autodemarcação, iniciada na metade de outubro.

O presidente interino da Fundação, Flávio Chiarelli, chegou a falar ao telefone com os Munduruku. Alegando falta de recursos, Chiarelli propôs a ida de algumas lideranças até Brasília para uma reunião. A proposta foi recusada: “Ele só quer um grupo pequeno, né?! Por que ele não vem pra cá? Como ele diz que tá com pouco recurso, por que ele não vem aqui com a gente? A conversa que ele vai ter em Brasília, ele pode ter aqui. A gente tá cansado de ir pra Brasília e não resolver nada”, afirmou Juarez Saw, cacique da aldeia Sawré Muybu.

Flávio Chiarelli disse que daria uma resposta sobre a publicação do relatório em 13 e 14 de dezembro, quando está prevista uma reunião no alto Tapajós. Os Munduruku não acreditaram na promessa e decidiram seguir com a autodemarcação, que já dura 44 dias.

DSC_0515modNo início da semana, os indígenas encontraram cerca de 300 garimpeiros explorando diamante bem próximo ao local sagrado que  dá noma à área indígena reinvidicada. Os donos são de Israel, Alemanha e um da Rússia, conhecido como Erlen. Todas as semanas um deles passa no garimpo para arrecadar o que é extraído. “Na semana levaram uma garrafa de coca-cola de 2 litros inteira cheia de diamante, acho que dava mais ou menos uns 3 mil quilates”, conta um garimpeiro que deixou o local após à fiscalização.

“A gente veio aqui porque a gente tá vendo a necessidade. A gente viu a destruição da nossa terra, da floresta. A gente veio aqui para fazer que a Funai assine o nosso relatório, mas a Funai não vai assinar. Vamos continuar nosso trabalho de autodemarcação, mas qualquer problema que acontecer com a gente ou com os invasores a culpa é toda do governo e da Funai, que não demarcam nossa terra”, disse Leusa Kaba Munduruku, após a desocupação da autarquia.

A Funai é pressionada por órgãos do Governo a segurar a publicação do relatório por causa de interesses hidrelétricos no Tapajós (Leia também: Funai Admite pressão e condiciona demacação à hidrelétrca).  O reconhecimento dos limites tornaria a hidrelétrica de São Luiz do Tapajós completamente ilegal, pois a mesma alaga em cheio grande parte da área secularmente ocupada pelos Munduruku.

Durante a ocupação foi divulgada mais uma carta, na qual os Munduruku falam sobre o que sentiram ao ver o local sagrado Daje Kapap Eypi, também conhecida pelos “brancos” como Sawré Muybu. Leia aqui:

Aldeia Sawre Muybu, 28 de novembro de 2014 “Quando nós passamos onde os porcos passaram, eu tive uma visão deles passando. Eu tenho 30 anos. Quando eu era criança minha mãe me contou a história dos porcos. É por isso que devemos defender nossa mãe terra. As pessoas devem respeitar também. Todas as pessoas devem respeitar porque a história está viva, estamos aqui, somos nós”. Orlando Borô Munduruku, aldeia Waro Apompu, Alto Tapajós Hoje, pela primeira vez durante a autodemarcação, chegamos ao local sagrado Daje Kapap Eypi, onde os porcos atravessam levando o filho do Guerreiro Karosakaybu. Sentimos algo muito poderoso que envolveu o nosso corpo. Outra emoção forte que sentimos hoje foi ver nossa terra toda devastada pelo garimpo bem perto de onde os porcos passaram. Nosso santuário sagrado está sendo violado, destruído por 50 PCs(retroescavadeiras) em terra e 5 dragas no rio. Para cada escavadeira, 5 pobres homens, em um trabalho semiescravo, explorados de manhã até a noite por 4 donos estrangeiros. Primeiro o Governo Federal acabou Sete Quedas, no Teles Pires, que foi destruído pela hidrelétrica, mando o espírito da cachoeira. E agora, com seu desrespeito em não publicar o nosso relatório, acaba também com Daje Kapap Eypi. Sentimos o chamado. Nosso Guerreiro, nosso Deus, nos chamou. Karoskaybu diz que devemos defender nosso território e nossa vida do grande Daydo, o traidor, que tem nome: O Governo Brasileiro e seus aliados que tentam de todas as formas nos acabar. Nós estamos lutando pela nossa demarcação há muitos anos, sempre que a gente vai para Brasília a Funai inventa mentiras e promessas para nos acalmar. Sabemos que a Finai faz isso para ganhar tempo para construção da hidrelétrica do Tapajós, agora nós cansamos de esperar. Sem chorar ou transformando as lagrimas em coragem, em Assembleia tomamos a seguinte decisão: a Funai tem três dias para publicar o nosso relatório e dar continuidade à demarcação, homologação e desintrusão da nossa terra. Caso não sejamos atendidos, vamos dar continuidade ao trabalho de autodemarcação até o final. Por enquanto só estamos avisando os invasores que eles devem sair do nosso território, mas se a Funai não fizer o que tem que ser feito, ou seja, publicar o nosso relatório e demarcar nossa terra, a mesma, com a sua omissão, estará provocando um conflito com proporções inimagináveis entre Munduruku e invasores, que já é anunciado há muito tempo, com todas as denúncias de ameaças que estamos sofrendo.

Fotos: Larissa Saud

Funai admite pressão e condiciona demarcação à hidrelétrica

Em um vídeo filmado pelos Munduruku em setembro deste ano durante uma reunião na Funai em Brasilia, a presidente do órgão, Maria Augusta Assirati, afirma ter sido pressionada durante sua gestão por setores do Governo Federal para não assinar o relatório de demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu, localizada na região de Itaituba, Pará. Ela chega a chorar e diz que ainda não publicou os estudos e o mapa com as coordenadas da TI porque outros órgãos do governo federal passaram a discutir a demarcação, que, se aprovada, inviabilizaria legalmente a construção da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no rio Tapajós.

Além de indígenas, ribeirinhos e representantes da Fundação, também estavam presentes Nilton Tubino, da Secretaria Geral da Presidência da República e Celso Knijnik, do Ministério de Planejamento. Maria Augusta teria se comprometido em oficializar o relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Sawré Muybu em abril deste ano, mas não cumpriu a promessa. Após meses de espera, os Munduruku foram até Brasília cobrar a publicação do Diário Oficial. Assirati confirma que estudos estão prontos e que estavam na mesa dela, mas que após a conclusão, em setembro de 2013, “órgãos do governo passaram a também discutir a proposta do relatório, discutir a situação fundiária na região”. Ela expõe os motivos: “Vocês sabem, né?! Que ali tem uma proposta de se realizar um empreendimento hidrelétrico, uma hidrelétrica ali naquela região que vai contar com uma barragem pra geração de energia e essa barragem tá muito próxima da terra de vocês (…) Quando a gente concluiu o relatório surgiram dúvidas se essa área da barragem, se esse lago que essa barragem da hidrelétrica vai formar, vai ter uma interferência na terra indígena de vocês, na área de vocês, na vida de vocês”.

Maria Augusta diz ainda que aguardava os dados do Componente Indígena dos Estudos de Impactos Ambientais para dar o aval em relação ao território e que a Funai estaria buscando formas de conciliar a demarcação com a construção de hidrelétricas no Tapajós: “A gente não conseguiu até hoje publicar, porque a gente aguarda esses elementos técnicos para poder realizar essa compatibilização: permitir que o setor elétrico faça o seu empreendimento, a barragem, e com isso beneficie um conjunto grande de pessoas no país, e permitir que a terra de vocês seja reconhecida e que vocês tenha o direito de vocês assegurado”.

Na reunião, os indígenas questionaram a representatividade do órgão e disseram que a Funai tem que defender os interesses dos indígenas e não das empreiteiras interessadas nos projetos hidrelétricos: “Se você tá na Funai você tem que defender o interesse nosso. O povo lá tá sofrendo. A gente veio aqui pra tratar de terra, pra tratar sobre a demarcação (…) se você não quer trabalhar na Funai, eu entregaria o cargo. Você não tem interesse em defender a nossa causa”, contrapõe Roseninho Saw, presidente da Associação Pahyhyp. Ao fim da pauta sobre a TI, Maria Augusta se compromete em dar um retorno sobre a demarcação no final de outubro, mas deixa o cargo nove dias depois. “Ela saiu sem assinar o nosso relatório. Estamos muito chateados e por isso decidimos começar a autodemarcação do nosso território, porque a gente viu que só o que avança é a hidrelétrica e a nossa terra não. A gente viu que se depender da Funai a nossa demarcação não vai sair”, afirmou Juarez Saw, cacique da aldeia Sawré Muybu.

Funai admite: interesse hidrelétrico compremete demarcação de Território Indígena from mdk on Vimeo.

Em 29/10, a Justiça Federal de Itaituba deferiu uma ação do Ministério Público Federal contra à União e Funai. O juiz federal Rafael Leite Paulo deu um prazo de 15 dias para a Funai publicar o relatório sob multa de 10 mil por dia de atraso. Dias depois, a Justiça Federal de Brasília derrubou a decisão do juiz local, alegando não haver urgência na publicação.

Demarcação segue com ameaças às lideranças

Durante a reunião, Maria Augusta reconheceu que a falta de demarcação gera incontáveis conflitos locais: “A gente acha fundamental que o território de vocês esteja garantido. Principalmente porque, como vocês colocaram, aquela região já está tendo pressão madeireira, garimpeira, de uma série de outros elementos que estão em volta da onde vocês moram”.

O que a ex-presidente diz se comprova durante a autodemarcação. Nas últimas semanas, os indígenas passaram a abrir pontos próximo a ramais madeireiros, o que está gerando uma série de intimidações ao cacique da aldeia Sawré Muybu, Juarez Saw. Um madeireiro chamado Vilmar foi até o acampamento montado no meio da mata pelos indígenas e disse a Juarez que teria comprado a terra de três posseiros. Vilmar, em tom ameaçador, disse aos indígenas que se eles queriam a terra, que pagassem por ela. Juarez já fora ameaçado por madeireiros em outros momentos. Em março deste ano foi protocolado no MPF uma denúncia. O cacique diz que há cerca de dois meses, durante uma apreensão de madeira ilegal, o ICMBIo teria colocado fogo em embarcações dos madeireiros, que atribuíram a ação aos indígenas.

II carta da Autodemarcação- O Governo ataca contra a demarcação da Terra Indígena Sawré Muybu preparando o leilão da Flona Itaituba I e II.

“Será que as autoridades do Governo e da Justiça Federal podem concordar na  preparação de um leilão que vai destruir parte de nossa terra indígena?”  Essa é a pergunta que os indígenas da etnia Munduruku de diversas comunidades fortificam com a segunda carta  da auto demarcação do Território DAJE KAPAP EYPI, no médio rio Tapajós. 

 Nesta carta, os indígenas denunciam o ‘fechar os olhos’ dos orgãos dos Governo e  o  desrespeito aos povos indígenas que habitam a região  da Flona Itaituba I e II, que será leiloada  com o fim de legalizar a exploração de madeira na area. Aldeias Munduruku localizam-se próximas às fronteiras de demarcação das Flonas, sendo as mesmas parte de seu território, pois são fontes de subsistência indígena: possibilitam a caça, pesca e agricultura.  Os indígenas exigem a  punição de madereiros e garimpeiros que estão os ameaçando em seu próprio  território. Os moradores dessas terras que querem apenas  seu território seja demarcado, assim como o rio e a floresta sejam preservados.  Por fim, a carta cobra um esclarecimento à perseguição  contínua feita pelo Governo.

Carta n. 02.

O Governo ataca contra a demarcação da Terra Sawré Muybu preparando o leilão da Flona Itaituba I e II.  

Mais uma vez o Governo faz demonstração da falta de respeito com o nosso povo e  continua trabalhando contra os direitos dos povos indígenas. Todo mundo sabe que nós povo Munduruku estamos fazendo a autodemarcação de nossa terra Sawré Muybu, conforme os pariwat¹ chamam, e a gente foi pego de surpresa com o edital do Serviço Florestal Brasileiro para fazer o leilão da Flona Itaituba I e II para exploração da madeira de nossa floresta. O governo fala que tem sobreposição da Flona com a nossa terra e que essa é uma das desculpas usadas para o atraso na demarcação, mesmo a gente sabendo que a Constituição Federal define o direito primeiro da terra indígena.

Como o Governo, o Serviço Florestal Brasileiro e o ICMBIO vai explicar que está preparando um leilão da Flona, ignorando, fazendo de conta que não sabe que tem uma terra indígena identificada? Essa é mais uma violência contra nossos direitos, contra a floresta e o futuro do nosso povo. A própria Justiça Federal que injustamente concordou com as desculpas da Funai para não publicar o Relatório de Identificação diz em seu documento que era preciso resolver problemas de terras entre os órgãos do Governo Federal antes de mais nada. Vamos perguntar de novo: Será que as autoridades do Governo e da Justiça Federal podem concordar na preparação de um leilão que vai destruir parte de nossa terra indígena?

O Ministério Publico Federal, que exige o cancelamento do edital para desmatar nossa terra, diz que  ele é de má fé e fere todos os direitos dos povos indígenas.

Para a audiência pública que está marcada para os dias 27 e 28 de novembro, precisa ser perguntado também como fica a situação dos ribeirinhos e populações tradicionais que moram na região e vivem dos rios e das florestas, nessa região que o governo colocou o nome de Flona Itaituba I e Itaituba II?*²

A Intenção do governo de expulsar os Munduruku de seu território milenar não é de hoje. Primeiro ele esqueceu por décadas que nessa região existe populações: indígenas, seringueiros, pescadores, agricultores, ribeirinhos e outros; segundo, passa como um trator de esteira por cima da lei, desrespeitando o povo brasileiro e sua constituição quando reduz a Flona Itaituba I e II e o Parque Nacional da região que grandes empresas querem explorar. Denunciamos a conivência do IBAMA E ICMBIO com toda essa situação.

Exigimos do MPF a investigação dos madeireiros e dos garimpeiros que estão nos ameaçando dentro do nosso território.

Na região do Tapajós enquanto todos os dias se mata mais e mais florestas, com os madeireiros invadindo os Parques e Flonas, inclusive a terra que estamos autodemarcando, enquanto aumenta a quantidade de balsas de garimpo matando o rio Tapajós, bem em frente ao Parque Nacional da Amazônia, o governo se preocupa em atacar o povo Munduruku, e a negar o nosso direito da terra tradicional, em vez de fazer a sua obrigação de proteção do meio ambiente que pertence a todos os brasileiros. Se eles pensam que a gente vai desistir da luta pela nossa terra, na proteção da floresta e de todos os seres que vivem nela, na luta pelo futuro de nossos filhos, estão enganados. Seguimos fortalecidos e unidos pela sabedoria de nossos pajés e caciques, e pela ligação com a natureza e os espíritos que Karosakaybu nos ensinou.

Sawé !

* ¹ pariwat: não-indígena ou homem-branco na língua munduruku

* ² Saiba mais sobre os aspectos juridicos da demarcação da terra indígena munduruku, no oficio do Ministério público, no link: http://www.prpa.mpf.mp.br/institucional/prpa/recomendacoes/2014/Recomendacao_MPF_Servico_Florestal_Brasileiro_suspensao_leilao_flonas_Itaituba_I_e_II.pdf

Documentário mostra resistência índígena à hidrelétricas no Tapajós

publicado em 18 de novembro, 23:55. Originalmente em:

Indio é Nois

“Indios Munduruku: Tecendo a Resistência” é lançado nesta semana no Brasil e na Inglaterra. Etnia luta contra construção de usinas na bacia do rio, no Pará, e ainda não tem terras demarcadas.
No oeste do Pará, índios da etnia munduruku tecem cestos e entrelaçam resistência contra a construção de hidrelétricas ao longo do rio Tapajós. “O povo munduruku é muito guerreiro. Luta por justiça de uma maneira muito nobre, tentando dialogar. Está tecendo uma resistência e enfrentando a situação de forma pacífica”, diz a documentarista Nayana Fernandez.

A brasileira de 33 anos percorreu aldeias da tribo indígena ao longo do rio Cururu, afluente do Tapajós, para registrar a luta dos munduruku contra um complexo hidrelétrico. O projeto prevê a construção de mais de 20 barragens na bacia do Tapajós, com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

O resultado das filmagens é o documentário Índios Munduruku: Tecendo a Resistência, lançado nesta semana no Brasil e na Inglaterra, simultaneamente. A produção independente contou com o apoio de organizações britânicas e de lideranças da etnia munduruku.

“Por que tirar o que nos resta? Todo esse Brasil era da população indígena”, questiona um dos entrevistados. “A gente costuma dizer que esse é um projeto de morte”, diz outra indígena.

Nayana conheceu os índios munduruku em setembro de 2013, quando acompanhou uma jornalista inglesa ao norte do país para identificar focos de resistência contra grandes obras federais.

Sensibilizada com a tradição da tribo indígena, Nayana voltou à bacia do Tapajós em fevereiro deste ano com a ideia do documentário. “A construção das usinas vai mudar quem eles são e industrializar um ambiente indígena tradicional”, diz.

A documentarista se lembra da filmagem de uma audiência pública sobre o projeto, que contou com a vigilância de homens do Exército. “Foi uma situação muito tensa. A audiência foi inteiramente em português e as perguntas deveriam ser feitas por escrito. A maior parte dos munduruku não sabe escrever. É um povo de cultura oral”, conta Nayana.

Para “conseguir as imagens mais doces, do tecer e das crianças”, ela teve que se aproximar lentamente para ganhar a confiança dos índios munduruku. “Existe uma preocupação com o tipo de material que será feito. Historicamente, muita gente filma e depois some, ganha dinheiro com a imagem dos índios sem trazer nenhum resultado.”

Autodemarcação

Em setembro, índios munduruku iniciaram a autodemarcação da terra indígena Sawré Muybu, entre os municípios de Itaituba e Trairão, no oeste do Pará, a poucos quilômetros da área prevista para a construção da usina de São Luiz do Tapajós. Eles cercam o território ocupado historicamente pela etnia de forma independente.

Uma carta divulgada pela tribo nesta segunda-feira (17/11) aponta que as tentativas de demarcação foram frustradas após uma série de negativas da Fundação Nacional do Índio (Funai).

“Nesses 30 dias da autodemarcação, já caminhamos cerca de 7 quilômetros e fizemos 2,5 quilômetros de picadas. Encontramos 11 madeireiros, três caminhões, quatro motos, um trator e inúmeras toras de madeira de lei às margens dos ramais em nossas terras”, diz a carta.

A equipe de produção do documentário, associações locais e o movimento Munduruku Ipereg Ayu pretendem criar uma campanha de financiamento coletivo para fortalecer as ações da etnia indígena, com a criação de uma associação e o apoio à autodemarcação das terras.

O documentário Índios Munduruku: Tecendo a Resistência está disponível na internet em português e inglês.

Fonte: O Povo

1st OPEN LETTER ON THE SELF-PROCLAMATION OF DAJE KAPAP EYPI INDIGENOUS TERRITORY

[English translation follows]

Sawré Muybu Village, Brazil
November 17, 2014

Our elders told us that the anteater is calm and quiet, keeping to itself and troubling no one – but that when it is threatened, its embrace and claws are deadly.

This is our way: quiet, calm, like the anteater. But the government is disturbing our peace; the government is meddling with Mother Earth, our wife.

Today, the 17th of November, marks three months since our meeting with the national Indian agency (Funai) and government representatives in Brasília, to demand the publication of the land claim report that defines the territory we know as IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI – I’E CUG’AP KARODAYBI. This report was completed in September 2013 but remains unpublished to this day. We were told by Maria Augusta, then president of Funai, that our lands occupy an area slated for hydroelectric development, and that the report was not published because of the interests of other government bodies. Two weeks after this meeting in Brasília, we received news that the federal public prosecutor had filed a motion requiring Funai to publish the report. It did not comply. Last week, we learned that the regional federal court judge for Region 1 revoked the injunction. We Munduruku have seen this all too often. We will never hang our heads in defeat: The fight goes on! We are the true keepers of this land, since before the Portuguese invaded.

Today also marks one month since we began our self-proclamation of the IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI Indigenous Territory, out of mistrust in the duplicitous words of the government and its organs.

Ensuring the lasting life of our territory is what gives us strength and courage. Without the earth, we could not survive. She is our mother, and we respect her. We know the government is moving against us, with its great projects to destroy our river, our forest and our life.

We Munduruku of both the Middle and Upper Alto Tapajós call this territory our home.

For decades we have waited in vain for the government to proclaim our right to this land, and meanwhile it is dying. Our forest is crying from the trees that we find left behind on illegal logging roads, for clandestine sale to sawmills; government environmental inspectors do nothing. Thirty truckloads of lumber have been hacked down on just one of these access roads, where ancient ipe trees and immense stands of açai palms have been stripped away. Our hearts are sad.

In 30 days of our self-proclamation campaign, we have already traveled some seven kilometers of our perimeter, and cleared two-and-a-half kilometers of boundary lines. Within our lands, we have come across 11 loggers and three logging trucks, four motorcycles and one harvester, as well as countless logs from protected species along their trails. On the morning of November 15, four loggers entered our work camp by surprise: trespassers led by a man named Vilmar, who claimed he owned six lots inside our territory and would never let us take his land; he planned to take legal action on November 24.

We hereby declare that we will no longer wait for the government to act, and resolve to proclaim this territory on our own. We call for the government to respect our work, our ancestors, our culture and our life. We will stop only when our work is done.

SAWE! SAWE! SAWE!

Carta I da Autodemarcação

I CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO DO TERRITÓRIO DAJE KAPAP EYPI

Aldeia Sawré Muybu – Itaituba/PA, 17 de novembro de 2014

Nossos antigos nos contavam que o tamanduá é tranquilo e quieto, fica no cantinho dele não mexe com ninguém, mas quando se sente ameaçado mata com um abraço e suas unhas.

Nós somos assim. Quietos, tranquilos, igual o tamanduá. É o governo que está tirando nosso sossego, é o governo que está mexendo com nossa mãe terra – nossa esposa.

Hoje, 17 de novembro, faz três meses que reunimos com a FUNAI e representantes do governo em Brasília-DF exigindo a publicação do relatório da demarcação da Terra IPI` WUYXI`IBUYXIM`IKUKAM; DAJE KAPAP EYPI – I`ECUG`AP KARODAYBI. Em setembro de 2013 o relatório delimitando nosso território foi concluído, mas não foi publicado e escutamos como resposta da então Presidente da FUNAI, Maria Augusta, dizendo que a nossa terra é uma área de empreendimentos hidrelétricos, e que por causa do interesse de outros órgãos do governo o relatório não foi publicado. Após duas semanas da reunião de Brasília recebemos notícias de que o Ministério Público Federal entrou com ação obrigando a FUNAI a publicar o relatório, o que a mesma não fez, e semana passada ficamos sabendo que o desembargador do TRF-1 caçou a referida liminar. Mas isso não foi novidade para nós Munduruku. Nunca abaixaremos a cabeça e abriremos a nossa mão, a luta continua! Somos verdadeiros donos da Terra, já existimos antes da chegada dos portugueses invasores.

Hoje também fez um mês que iniciamos a autodemarcação da nossa Terra IPI`WUYXI`IBUYXIM`IKUKAM DAJE KAPAP EYPI, por não confiar nas palavras enganosas do governo e de seus órgãos.

Garantir o nosso território sempre vivo é o que nos dá força e coragem. Sem a terra não sabemos sobreviver. Ela é a nossa mãe, que respeitamos. Sabemos que contra nós vem o governo com seus grandes projetos para matar o nosso Rio, floresta, vida.

Esse território atende às populações do Médio e Alto Tapajós.

Esperamos pelo governo há décadas para demarcar nossa Terra e ele nunca o fez. Por causa disso que a nossa terra está morrendo, nossa floresta está chorando, pelas árvores que encontramos deixados por madeireiros nos ramais para serem vendidos de forma ilegal nas serrarias e isso o IBAMA não atua em sua fiscalização. Só em um ramal foi derrubado o equivalente a 30 caminhões com toras de madeiras, árvores centenárias como Ipê, áreas imensas de açaizais são derrubadas para tirar palmitos. Nosso coração está triste.

Nesses 30 dias da autodemarcação já caminhamos cerca de 7 km e fizemos 2 km e meio de picadas. Encontramos 11 madeireiros, 3 caminhões, 4 motos, 1 trator e inúmeras toras de madeiras de lei as margens dos ramais em nossas terras, e na manhã do dia 15 fomos surpreendidos em nosso acampamento por um grupo de 4 madeireiros, grileiros liderado pelo Vilmar que se diz dono de 6 lotes de terra dentro do nosso território, disse ainda que não irá permitir perder suas terras para nós e na segunda próxima estaria levando o caso para a justiça.

Agora decretamos que não vamos esperar mais pelo governo. Agora decidimos fazer a autodemarcação, nós queremos que o governo respeite o nosso trabalho, respeite nossos antepassados, respeite nossa cultura, respeite nossa vida. Só paramos quando concluir o nosso trabalho.

SAWE, SAWE, SAWE.

1st OPEN LETTER ON THE SELF-PROCLAMATION OF DAJE KAPAP EYPI INDIGENOUS TERRITORY
[English translation follows]

Sawré Muybu Village, Brazil
November 17, 2014

Our elders told us that the anteater is calm and quiet, keeping to itself and troubling no one – but that when it is threatened, its embrace and claws are deadly.

This is our way: quiet, calm, like the anteater. But the government is disturbing our peace; the government is meddling with Mother Earth, our wife.

Today, the 17th of November, marks three months since our meeting with the national Indian agency (Funai) and government representatives in Brasília, to demand the publication of the land claim report that defines the territory we know as IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI – I’E CUG’AP KARODAYBI. This report was completed in September 2013 but remains unpublished to this day. We were told by Maria Augusta, then president of Funai, that our lands occupy an area slated for hydroelectric development, and that the report was not published because of the interests of other government bodies. Two weeks after this meeting in Brasília, we received news that the federal public prosecutor had filed a motion requiring Funai to publish the report. It did not comply. Last week, we learned that the regional federal court judge for Region 1 revoked the injunction. We Munduruku have seen this all too often. We will never hang our heads in defeat: The fight goes on! We are the true keepers of this land, since before the Portuguese invaded.

Today also marks one month since we began our self-proclamation of the IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAM DAJE KAPAP EYPI Indigenous Territory, out of mistrust in the duplicitous words of the government and its organs.

Ensuring the lasting life of our territory is what gives us strength and courage. Without the earth, we could not survive. She is our mother, and we respect her. We know the government is moving against us, with its great projects to destroy our river, our forest and our life.

We Munduruku of both the Middle and Upper Alto Tapajós call this territory our home.

For decades we have waited in vain for the government to proclaim our right to this land, and meanwhile it is dying. Our forest is crying from the trees that we find left behind on illegal logging roads, for clandestine sale to sawmills; government environmental inspectors do nothing. Thirty truckloads of lumber have been hacked down on just one of these access roads, where ancient ipe trees and immense stands of açai palms have been stripped away. Our hearts are sad.

In 30 days of our self-proclamation campaign, we have already traveled some seven kilometers of our perimeter, and cleared two-and-a-half kilometers of boundary lines. Within our lands, we have come across 11 loggers and three logging trucks, four motorcycles and one harvester, as well as countless logs from protected species along their trails. On the morning of November 15, four loggers entered our work camp by surprise: trespassers led by a man named Vilmar, who claimed he owned six lots inside our territory and would never let us take his land; he planned to take legal action on November 24.

We hereby declare that we will no longer wait for the government to act, and resolve to proclaim this territory on our own. We call for the government to respect our work, our ancestors, our culture and our life. We will stop only when our work is done.

SAWE! SAWE! SAWE!