Lançamento!

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“Na Rota dos Arqueólogos da Amazônia”, de Solange Bastos, será lançado em outubro, no Congresso da SAB, em Goiânia. O livro fala sobre Trabalho dos arqueólogos na Amazônia, 13 mil anos de selva habitada, arqueologia como história indígena de longa duração e exploradores do século XXI. Com documentário anexo de Miguel Castro, sobre a resistência no Tapajós e autodemarcação das terras Munduruku. Curta a fanpage do livro para ficar informado sobre o lançamento em outras cidades http://migre.me/rkzbd.

Povo Munduruku luta para que Belo Monte não volte a se repetir: a autodemarcação continua!

Por Rachel Gepp

No ato de tornar aparente a linha imaginária que delimita seu território, os Munduruku tentam escapar da invisibilidade que está sendo imposta pelo governo demarcando por conta própria seu território.

A autodemarcação da TI Sawre Muybu, que começou em outubro de 2014, continua avançando a trincheira contra as hidrelétricas planejadas na bacia do Tapajós. Uma forma de exigir reconhecimento não apenas de seu território, como de seus direitos, que nesse momento estão sendo atacados pelo atual Congresso que busca esvaziar os direitos dos povos das florestas, como a PEC 215.
Desde setembro de 2013 os Munduruku aguardam a Fundação Nacional do Índio (Funai) publicar o Relatório Circunstanciado que reconhece o vínculo histórico que eles têm com essa terra. Para todo o povo Munduruku, Daje Kapap Eipi, é uma terra sagrada que lhes foi dada pelo Deus Karosakaybu, criador dos animais e do rio Tapajós. Para o governo, um entrave na sua política desenvolvimentista de destruição e morte.
O relatório está parado em Brasília por impedimento de arranjo interno do governo, como já declarou a ex-presidente interina da Funai Maria Augusta Assirati. Se a Funai publicar pode inviabilizar a usina de São Luiz do Tapajós porque o alagamento previsto incide em grande parte da terra indígena Sawre Muybu (território Daje Kapap eipi). Como a remoção de indígenas é proibida pelo artigo 231 da Constituição, o governo não demarca para alegar que a TI nunca foi reconhecida oficialmente.
A Justiça Federal de Itaituba, a pedido do Ministério Público Federal, está multando a Funai por descumprir a ordem de seguir a demarcação da TI Sawre Muybu. Desde 6 de agosto de 2015 a Funai está intimada a pagar multa de R$3 mil por dia por não cumprira sentença judicial de que a demarcação deve prosseguir. Para a Justiça, a Funai alega que não há disponibilidade orçamentária para demarcações na região amazônica.
Enquanto o governo finge que Sawre Muybu não existe, é conveniente permitir que grupos madeireiros, palmiteiros e garimpeiros sigam ameaçando os índios e explorando ilegalmente o território sem nenhuma fiscalização. Durante a autodemarcação os Munduruku relatam a destruição que estão encontrando.
Cansados de esperar, como forma de pressionar a Funai, no encerramento da 1ª Conferência Regional de Política Indigenista, que aconteceu em Santarém entre os dias 15 e 17 de agosto, o Movimento Indígena do Baixo Tapajós com apoio dos Munduruku do médio e Movimento Ipereg Ayu do alto Tapajós, impediram que dois servidores de Brasília e uma representante do Ministério da Justiça que participavam do evento fossem embora. Os três permaneceram no Centro Indígena Maíra, mas por motivos de saúde a representante da Justiça foi liberada.
Por telefone os indígenas negociaram com João Pedro Gonçalves da Costa, novo presidente da Funai, amazonense, aliado com as políticas do PAC. As exigências para liberar os servidores dependia da publicação dos relatórios da TI Sawre Muybu e da TI Cobra Grande, construída de três povos: Arapiun, Tapajo e Jaraki, eles também exigiram uma audiência com o atual presidente, para cobrar que a Funai cumpra seu compromisso institucional com os povos indígenas e atue com autonomia pelos interesses originários do orgão público.
João Pedro garantiu a ida de 25 delegados à Brasília, num prazo de 10 dias, mas não firmou resposta sobre a publicação dos relatórios circunstanciados das terras indígenas alegando estar no cargo a pouco mais de 60 dias e ainda se inteirando das disputas territoriais apresentadas pelos indígenas.
Podemos compreender esse jogo político como uma forma de extermínio. Com Belo Monte o governo nos mostra até onde é capaz de ir, desrespeitando leis e suspendendo direitos, em nome do lucro da parceria público e privado. Nos prova que é capaz de promover catástrofes irreversíveis aos povos indígenas e ao meio ambiente em nome do “desenvolvimento”.
Assista o vídeo da segunda etapa da autodemarcação do território Munduruku. Por instinto de sobrevivência, a luta continua!

Movimento Indígena pressiona FUNAI para demarcar TI no Tapajós

Por Rachel Gepp

Movimento Índigena do Baixo e médio Tapajós tem semana intensa de reivindicao indigena em favor de seus direitos e pressionam a Funai, mantendo dois servidores  em centro indigenista em Santarém, Oeste do Pará até que suas reinvidicações sejam discutidas.

O Movimento Indigena do Baixo rio Tapajós que depois de cinco  longos dias de mobilização, que começaram na manhã de quinta-feira (13) com a ocupação da sede do ICMBio em Santarém, protestavam contra o projeto de venda de carbono na área,  que afetaria as aldeias indígenas da reserva extrativista- RESEX Tapajós-Arapiuns.  Conseguiram, após intensas negociações, a suspensão do Projeto Demonstrativo de Carbono.

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Porém há ainda uma extensa lista de reivindicações, como a finalização das demarcações das Terras Índigena Sawre Muybu- do povo Munduruku e Terra Índigena Cobra Grande que é construída de três povos: Arapiun, Tapajo e Jaraki. Desde ontem (15), no encerramento da 1ª Conferência Regional Indigenista, de forma pacífica e garantido a segunça e integridade física, o Movimento Indígena do Baixo Tapajós, com apoio dos Munduruku do médio Tapajós, mantém dois servidores da FUNAI no Centro Indígena Maíra em Santarém, até que a pauta de reinvidicações seja atendida.

Nesse momento os indígenas negociam por Telefone com João Pedro Gonçalves da Costa, presidente da Fundação Nacional do Índio, a FUNAI, a Mobilizaçao indigena continua.

Letter from the Munduruku in Support of the Guarani-Kaiowa, Ka’apor, and all the Indigenous Warriors of Brazil.

We, Munduruku of the middle Tapajós River, with four villages in the municipality of Itaituba, Pará, are ourselves in the process of demarcating a territory that, despite being in an area of government initiatives, is land that has belonged to the Munduruku since even before the arrival of the “pariwat” (white) invaders of the fifteenth century, in the colonial era.
The entire indigenous population of Brazil knows that the Brazilian government has never respected our rights, even those that exist in the 1988 Federal Constitution. And no politician in congress defends the rights of indigenous peoples. A good politician would not vote for a law that does away with the rights of our people. She or he would revoke the Proposed Constitutional Amendment (PEC) 215, Ordinance 303 of the Attorney General’s Office, and other proposed laws, like the new mining code.
Moreover, the government’s large projects are trampling the rights of all indigenous peoples of Brazil. One of these initiatives is the construction of hydropower plants in Pará: Belo Monte, São Luiz do Tapajós, and four more along the Tapajós River’s course; one in Jatobá; one in Chacorão; another already in the final phase on the Teles Pires River (continuing onto the São Benedito River), one on the São Manoel River and three more to be built on the Jamanxim River. All of them will produce energy, but none will benefit any nearby cities, let alone the indigenous community.
The electricity will only benefit large companies, such as mining firms and multinationals. A dam will not generate power for small populations that cannot afford to pay for expensive energy. Then, with the dam built, other large projects of destruction will come: railroads and the waterway in the Tapajos River through which soybeans will flow to export abroad. For this waterway they plan to build seven ports along the Tapajós and also pave the BR-163 Highway.
Guarani-Kaiowa and Ka’apor relatives, and all other people who struggle like us: we Munduruku feel a lot of pain for you, for the size of the crime that government officials have committed with our recurring murders. For centuries the pariwat have been taking our lands; they plucked the life from our forest, which gives us food and even medicine for our family. They violate and rape our mother earth and leave her dishonored and disrespected.
With its projects, the government brings neither “progress” nor “development,” but brings only death. And the indigenous population has no right to challenge this type of violation. And when we manifest our outrage (which we are right to have and have rights to express), the government says that we “are obstructing” the process. We, indigenous people, are not obstructing anyone. This is because it is not us who are going to Brasilia to take the pariwat’s land and kill them. Nor have we gone there to disrespect their rights or to invade their territory. How can they accuse us of obstruction when it was they themselves who made the laws to be obeyed and enforced, and now they do not even respect what they themselves wrote? It wasn’t us. We demand that the government guarantee our constitutional rights, rights that flow from the 1988 charter and constituent assembly.
Relatives, let us fight together. All it takes is to observe how nature teaches us. We note that the taoca ants never hunt alone, but in swarms. They enter through the hollows of a trunk and chase away the most fearsome snakes, scorpions, centipedes, spiders, and even the jaguar and the great snake. In the trunks of trees they capture and destroy any species that they confront. These ants are dangerous.

Wasps are the same way. They never attack alone. Also the fierce red ants: first comes only one and close behind comes the pack ready to attack. Wild boars teach us all about the art of fighting or war. Jaguars, during rutting season, come together in groups to mate. Animal species teach us all of this. In every moment of our lives, we indigenous people, we must always pull together.

This is the moment for us to stand and fight together against our greatest enemy, which is the government. Let us form a grand alliance, and here our knowledge teaches us with the wisdom of the tortoise. He is slow, but he’s no fool. He walks little by little, but he’s never behind. He has fortitude and no one can defeat him. The tortoise always wins. He’s very intelligent and wise.

This is the only way: we must join forces. All the indigenous peoples of Brazil and throughout the world, from north to south and east to west. Let’s all let out the cry of “Enough!” Enough with the massacres, enough with the violation of our rights. Enough with the robbing of our lands.

So, if we mobilize our collective forces at the national and international levels, we can yet defeat our greatest enemy. We will not raise our hatchet to shed blood. We want to demonstrate that we are a people who struggle for the lives of all human beings who depend on nature, and not people of war.

All peoples should join this great battle for PEACE, for the love of nature, and for the love of all extant beings, which have different forms of life. Because we depend on all of them.

Sawe!
The Ipereg’ayu Movement and the Pariri Indigenous Association

Aldeia Sawre Muybu, July 15, 2015

tr. Jeremy M. Campbell 7/23/2015

IV Carta de Autodemarcación territorial Munduruku-

Nosotros, los Munduruku del Alto y Medio Tapajós, continuamos con la segunda etapa de la autodemarcación IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAP – DAJE KAPAP EYPI.

Durante cinco días en la selva, hemos determinado seis puntos de la autodemarcación y, a la vez, hemos sido testigos de la destrucción llevada a cabo por los invasores y saqueadores de nuestras tierras: empresas madereras, extractores de palmito y ocupantes ilegales.

El segundo día, mientras seguíamos el rastro de los madereros, tuvimos dificultades para alimentarnos, ya que llevábamos dos días sin encontrar carne de caza. Sabemos que donde hay presencia  de ruido de tractores, de motosierras y movimiento de personas en el ramal, la caza se extingue porque los animales no toleran el olor humano. Mencionamos esto porque que hemos presenciado estos acontecimientos durante la autodemarcación.

Después de recorrer el camino de tierra de los madereros, vimos un sendero y un puente, que ellos utilizan para cargar madera y palmito de açaí. También vimos sus plantíos. Este sendero es una vía para la extracción de madera y troncos de palma. Ahora que estamos en el proceso de autodemarcación, nos hemos percatado de que esta área afectada se encuentra dentro de nuestro territorio.

Hemos observado la destrucción que esta gente está haciendo en los campos de açaí. Hemos observado la destrucción que esta gente está haciendo en los campos de açaí: comienzan los madereros creando el ramal y luego vienen los extractores de palmito para destruir los acaiçales. Hemos tratado de preservar el açaí para poder dárselo a nuestros nietos, pero ahora nos damos cuenta de que no queda casi nada en nuestra tierra. De esta tierra es de donde extraemos la fruta para dar su jugo a nuestros hijos, y ahora estamos presenciando su destrucción. Siempre decimos que el PARIWAT (hombre no indígena) no tiene ningún tipo de conciencia sobre esto.

La razón por la que estamos demarcando nuestra tierra es porque el PARIWAT está destruyendo los árboles y nosotros no lo hacemos. La intención del PARIWAT y del Gobierno Federal es destruir y la intención del indígena es preservar. ¿Por qué preservamos? Porque este patrimonio nos lo ha otorgado nuestro guerrero Karosakaybu. La tierra es nuestra madre, la que nos proporciona el sustento y supervivencia, y donde podemos vivir de acuerdo a nuestra propia cultura.

DAJE KAPAP EYPI es un lugar sagrado para todo el pueblo Munduruku, ya sea del Alto o Medio Tapajós. Tenemos que preservar nuestra naturaleza, nuestro río, nuestros animales y nuestros frutos, otorgados por Karosakaybu.

Estamos llevando a cabo la autodemarcación con el fin de demostrar que esta es nuestra tierra y para que los hombres blancos la respeten. Queremos tener autonomía sobre nuestra tierra, queremos que nosotros, los indígenas, seamos los fiscales y protectores de esta tierra, como siempre lo hemos sido.

Seguimos aquí en la autodemarcación y no sabemos con qué nos encontraremos más adelante…

Sawe!

11 de julio de 2015, aldea Munduruku Sawre Muybu, Medio Río Tapajós. Estado del Pará, Brasil.

Traducción por Anai Vera e Guillermo Justel, revisado por Emilia Villagra e Inés Jimenes

Coordinado por el “Comité Paulista de Solidaridad a Lucha Por el Tapajós”

Carta dos Munduruku em apoio aos Guerreiros Guarani Kaiowa, Guerreiros Ka’apor e a todos os guerreiros indígenas do país.

A carta do povo Ka’apor, povo do Maranhão, divulgada no começo do mês que além de solidarizar com a luta dos povos Guarani Kaiowa e Munduruku, convoca todos  a uma contínua união  em torno da luta contra os saqueadores de direitos de comunidades tradicionais, donos de terras e governantes deste País. Esta carta, foi respondida pelo Movimento Munduruku Ipereg’ayu, leia  a carta na íntegra:

(Carta do Ka’apor aos Guerreiros Guarani Kaiowá e Guerreiros Munduruku aqui.)

01

Carta dos Munduruku em apoio aos Guerreiros Guarani Kaiowa, Guerreiros Ka’apor e a todos os guerreiros indígenas do país.

Nós, Munduruku do médio tapajós, com quatro aldeias localizadas no município de Itaituba-PA e um novo território em processo de autodemarcação dentro da área de empreendimento do governo, onde o território é dos munduruku antes mesmo da chegada dos pariwat invasores do século XV, no tempo dos colonizadores.

Toda a população indígena do Brasil sabe que o governo brasileiro nunca respeitou o nosso direito, mesmo ele existindo na Constituição Federal de 1988. E nenhum político que ocupa o cargo no congresso defende o direito dos povos indígenas. Se fosse um bom politico, não votaria em aprovar a Lei que acaba com os direitos dos povos. Revogaria a PEC 215, a Portaria 303 da AGU e outros projetos de lei, como o novo código da mineração.

Além do mais, os grandes projetos do governo estão atropelando os direitos de todos os povos indígenas do Brasil. Um deles é a construção de Usinas Hidrelétricas no Pará: Belo Monte, São Luiz do Tapajós e mais 4 ao longo do leito do tapajós; uma no Jatobá; uma no Chacorão; outra já em fase final no rio Teles Pires e com continuidade em São Benedito, no rio São Manoel e mais três a serem construídas no rio Jamanxim. E todas elas produzirão energia, mas não beneficiarão nenhuma cidade mais próxima e muito menos a comunidade indígena.

A Energia virá apenas para favorecer as grandes empresas, como as mineradoras e as multinacionais. A hidrelétrica não gerará energia para as pequenas populações que não tem condição de pagar energia cara. Então, com a barragem construída virão mais outros grandes projetos de destruição: a ferrovia; a hidrovia no rio tapajós para escoar os grãos de soja, para exportar ao exterior. E com isso pretendem construir 7 portos no leito do tapajós e asfaltar a BR- 163.

Parentes Guarani Kaiowa, Ka’apor e todos os outros povos que lutam como nós: nós, munduruku, sentimos muitas dores por vocês, pelo tamanho crime que os governantes vêm cometendo, com nossos assassinatos recorrentes. Há séculos os pariwat vêm tomando as nossas terras, vem tirando a vida de nossa floresta que nos dá alimentos para nossa família e que nos dá até medicação. Violentam e estupram a nossa mãe Terra e a deixa desonrada, não a respeita.

O governo, com o seu projeto, não traz “progresso e nem desenvolvimento”, só traz morte. E a população indígena não tem direito de contestar esse tipo de violação. E quando nos manifestamos indignados, com toda razão e com direitos, o governo diz: “estão atrapalhando”. Nós, indígenas, não estamos atrapalhando ninguém. Porque não somos nós que estamos indo a Brasília para tomar as terras dos pariwat e matar. Nem vamos lá para desrespeitar os seus direitos e não invadimos os seus territórios. Como dizem que estamos atrapalhando se foram eles mesmos que fizeram essa tal de Lei para ser obedecida e cumprida e não estão nem respeitando o que eles mesmos escreveram? E não fomos nós. Nós exigimos que o governo garantisse o nosso direito constitucionalmente, na carta magna, na Assembleia constituinte.

Parentes, vamos lutar juntos. É só observar como a natureza nos ensina. Observamos que as formigas taoca nunca caçam sozinhas, mas em bando. Elas entram nas ocas e fazem fugir as mais temíveis cobras, escorpião, centopeia, aranhas, a onça, a grande cobra. Entram em oco de paus e capturam e destroem qualquer espécie que encontram pela frente. Essas formigas são perigosas.

Da mesma forma agem os maribondos. Eles nunca atacam sozinhos. E também as formigas vermelhas ferozes: primeiramente ela vem sozinha e logo em seguida vem o bando para atacar. Os porcos do mato nos ensinam tudo sobre a arte de lutar ou da guerra. As onças, no período do cio, juntam-se em bando para acasalar. As espécies animais nos ensinam tudo isso. Em todos os momentos de nossa vida, nós indígenas, devemos sempre estar juntos.

O momento é esse para lutarmos juntos, contra o nosso maior inimigo, que é o governo. Vamos formar uma grande aliança como o nosso saber nos ensina: a sabedoria do jabuti. Ele é lento, mas não é lerdo. Ele anda devagar, mas não fica para trás. Tem uma resistência e ninguém o derrota. Ele sempre vence. É muito inteligente e sábio.

A única forma é essa: Nós temos que unir nossas forças. Todos os povos indígenas do Brasil e do mundo, desde o norte até o sul, do o oriente ao ocidente. Vamos dar o grito de “basta”! Chega de nos massacrarem, de violarem nossos direitos. Chega de tomarem as nossas terras.

Então, se fizermos uma grande mobilização de nível nacional e internacional poderemos vencer o nosso maior inimigo. Nós não vamos levantar a nossa machadinha para derramar sangue. Queremos mostrar que somos um povo que luta pela vida de todos os seres humanos que dependem da natureza, e não da guerra.

Todos os povos devem se juntar para essa grande batalha pela PAZ, o amor pela natureza, o amor a vida. De todos os seres existentes, que possuem formas de vidas diferentes. Por que nós dependemos de todos eles.

Sawe!

Movimento Ipereg’ayu e Associação Indígena Pariri

Aldeia Sawre Muybu, 15 de julho de 2015

Carta dos Munduruku apoio kaapor e guarani kaiowa

IV CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO

IV CARTA DA AUTODEMARCAÇÃO

Nós Munduruku, do alto e médio Tapajós, estamos dando continuidade com a segunda etapa da autodemarcação IPI WUYXI IBUYXIM IKUKAP- DAJE KAPAP EYPI.

Em cinco dias na floresta, concluímos seis pontos da autodemarcação e presenciamos rastros de destruição, feitos pelos ladrões invasores de nossas terras: madeireiros, palmiteiros e grileiros.

No segundo dia, acompanhando o rastro dos madeireiros, encontramos dificuldades para a alimentação, estávamos há dois dias sem encontrar caça. A gente sabe que onde há presença de zoada de trator, de motosserra, e com a circulação de pessoas no ramal a caça fica extinta, esses animais não suportam sentir esse cheiro humano. Estamos falando a respeito disso em razão de presenciar essa cena durante a autodemarcação.

Depois que a gente varou no ramal dos madeireiros, vimos uma trilha, uma ponte, que eles fazem para carregar madeira e palmito de açaí. Vimos também a roça deles. Isso aqui é uma estrada para puxar madeira e palmito. Como a gente está autodemarcando agora, percebemos que está dentro da nossa área.

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Estamos vendo aqui a destruição que o pessoal está fazendo no açaizal. Quem começa tudo isso são os madeireiros. Eles fazem o ramal e os palmiteiros vem atrás destruindo o açaizal. A gente estava preservando para tirar o açaí para os nossos netos, estamos vendo que não temos mais quase nada na nossa terra. Daqui que a gente tira a fruta para dar o suco aos nossos filhos e agora estamos vendo a destruição. Sempre dizemos que o pariwat (branco) não tem consciência disso.

Por isso que estamos fazendo a autodemarcação, porque os pariwat estão destruindo as árvores, nós não fazemos ao modo deles. A intenção do pariwat e do governo federal é só destruir mesmo, e a intenção do indígena é preservar. Por que a gente preserva? Porque esse patrimônio foi dado a nós por nosso guerreiro Karosakaybu, a terra é a nossa mãe de onde tiramos nossa sobrevivência e onde podemos viver de acordo com a nossa cultura.

Daje Kapap Eypi é um lugar sagrado para todo o povo Munduruku, seja do alto ou médio Tapajós. Temos que preservar a nossa natureza, o nosso rio, os nossos animais e as nossas frutas, deixadas por Karosakaybu.

Estamos realizando a autodemarcação para mostrar que essa terra é nossa, para que os brancos respeitem a nossa terra. Queremos ter autonomia em nossa terra, queremos que nós, indígenas, possamos ser os fiscais e protetores dessa terra como sempre fomos.

Continuamos aqui na autodemarcação e não sabemos o que vamos encontrar pela frente…

Sawe!

11 de julho de 2015, aldeia Sawre Muybu, médio Rio Tapajós.